Mais ou menos a seis meses atrás, em 16 de setembro de 2020, Richard Stallman, também conhecimento como "rms" reunciou sua cadeira da FSF (Free Software Foundation, mantenedora da família de licenças GPL) com manchetes não-tão-boas. Há uma semana atrás, em 22 de março de 2021, rms anunciou ao mundo que ele está de volta.

E agora estamos numa grande baderna. De novo

Antes de mais nada...

Deixem-me deixar algo bem claro de começo: Ninguém está negando o trabalho feito pelo rms. Ninguém está dizendo que o trabalho de criar um compilador inteiro para produzir um sistema operacional de código aberto não tem seus méritos. Todos esses são reconhecidos e mostram um grande trabalho para o bem maior.

Entretanto...

Existem alegações vindo de todos os lados que rms assediava as pessoas (principalmente mulheres), algumas pessoas se sentindo inconfortáveis com suas palavras e sua forma de agir; e, ao mesmo tempo, temos pessoas falando que não é tudo isso, que existe um "linchamento" acontecendo (sem mentira) e pessoas que mostram seu apoio.

"Ele é uma pessoa boa ou má?" não é uma pergunta que eu pretendo responder aqui. Isso não faz parte do que me incomoda nessa discussão toda.

Devido às suas opiniões fortes e reclamações gerais da sua presença, ele resolveu renunciar a sua posição da FSF, a organização responsável pela licença GPL e coisas relacionadas à ela, desde mantê-la ativa a ajudar desenvolvedores com questões legais do uso da licença.

(Pessoalmente, embora o artigo acima diga que sua renuncia tenha sido em parte pelas notícias de pessoas usando o "serviço" de Jeffrey Epstein de garotas jovens como prostitutas, eu li que o apoio do rms ao Marvin Minsky, citado como um dos clientes de Epstein, não era "Isso, sexo com menores é ok!" mas "Eu acho que Minsky foi convencido que as garotas não eram menores de idade e forçadas ao sexo, então ele foi parte disso sem saber" -- e, de novo, isso foi o que eu entendi. E apenas neste ponto, para que fique claro).

Mas, no fim, foi o que foi apontando durante a sua renuncia.

E então...

Em 22 de março de 2021, rms apareceu num evento online, LibrePlanet para anunciar que ele estava de volta ao board da FSF. Não houve um anúncio oficial sobre isso, e foi uma grande surpresa para todos.

Dias depois do anúncio, a RedHat, a FSFE (Free Software Foundation Europe) e outras empresas e grupos tiraram seu apoio a FSF.

Mas...

O primeiro problema que eu vejo com tudo isso é que a FSF, enquanto promotora da abertura de software, que mantém uma licença que permite a todos terem acesso ao código, uma licença que promove a evolução do código fonte de forma aberta, de repente tomou uma decisão atrás de portas fechadas sem consultar ninguém fora do board.

É estranho alguém promover abertura quando as duas próprias decisões são tomadas de forma fechada.

E também...

O segundo problema é o conteúdo do anúncio.

De novo, sem entrar na discussão do "Ele disso isso", "Ele não disse isso", uma pessoa precisa entender o que foi dito que causou revolta. Não foi dito nada sobre "Olha, o que eu disso foi tirado de contexto" ou mesmo um "Eu escolhi mal minhas palavras e isso acabou machucando pessoas e eu prometo que vou tomar mais cuidado no futuro"1.

Eu acho que, se houvesse pelo menos alguma menção à isso, a revolta atual não seria tão forte. Não que não houvesse revolta, mas seria bem menos agressiva. Diabos, eu acho que se houverem qualquer menção ao entendimento do porque houve a primeira revolta, dessa vez seria bem menos dolorido.

E finalmente...

O terceiro problema é com o estado atual do software livre. Não, eu quero dizer que "ESTAMOS SENDO ENGOLIDOS PELA GANÂNCIA CORPORATIVISTA!", embora isso seja parcialmente verdade, mas estamos vendo a escalada de uso de licenças "meio-que-código-aberto-mas-não-exatamente", também conhecidas como "código disponível" como a SSPL sendo recentemente adotada pela Elastic Corporation.

Então que os recursos da FSF poderiam estar sendo usadas para remover FUD ou conceitos errados sobre as licenças GPL, agora nós precisamos focar em "Deveria estar no board?" O board inclusive teve que criar uma posição para que um membro haja como diretor e outras medidas para mostrar abertura, quando deveria haver foco em se certificar que licenças "código disponível" não se espalhem muito.

Em conclusão...

Eu só tenho uma pergunta na minha cabeça sobre isso: Alguém precisa realmente fazer parte do board para ajudar a FSF? Imaginem que, ao invés de dizer "Estou de volta ao board", o anúncio do rms fosse "Estou novamente ajudando a FSF a promover software livre". Ainda haveriam aqueles reclamando, mas acho que até mesmo esses pensariam "Bom, pelo menos ele não é parte da FSF". E a vida continuaria, e a FSF poderia focar na GPL e outras licençás, e ajudar empresas a não entrarem na armadilha do "licença código-disponível é a nossa única solução" e assim por diante.

Então por que entrar no board? Não existe nenhuma outra posição que o rms poderia assumir na FSF? Eu duvido muito, mas alguém (ou alguéns) decidiu que não era o suficiente; board ou nada.

"Já que ele está lá, deixa lá" como forma de amenizar a discussão não é a forma de lidar com o problema. A menos que haja uma discussão aberta do porque -- e, por curiosidade mórbida, por quem -- o rms retornou ao board, todo o ponto da FSF em serem os promotores de sistemas abertos parece estremecido pra mim, pessoalmente.

Post-script

Uma forma fácil de fazer um projeto se desfazer é a necessidade de terem heróis. "Se essa pessoa sair de férias, o sistema cai", "O sucesso desse projeto é por causa dessa pessoa" são sinais feios em um projeto.

Por exemplo, quando o Guido von Rossum decidir abdicar da sua posição de BDFL, toda a comunidade Python estremeceu procurando uma forma de continuar -- principalmente porque a comunidade colocou pressão sobre ele por acreditar que a única forma de continuar progredindo fosse com o Guido na direção. A comunidade Rust, por outro lado, foca um bocado em remover essa imagem de "Esse é o projeto dessa pessoal", dando pequenas partes para várias pessoas: "Eu sei que tem uma pessoa liderando a parte de "melhores mensagens de erro", eu sei que tem uma pessoa liderando a parte de "async" (embora eu esteja vendo uma mudança em que vai liderar isso daqui pra frente), ei sei que tem uma pessoa liderando a parte de "Rust em ambientes embarcados" e assim por diante. Se qualquer um desses abdica do seu post, eu não vou sentir que o ecossistema inteiro de Rust está em perigo; é só uma parte do todo, e um substituto pode ser encontrado porque essa pessoa não era um "herói" daquela parte.

A necessidade de heróis parece ser parte do problema da FSF: Sem o rms, não havia um herói abordo para promover o projeto. Porque ninguém realmente tentou sair da sombra do rms antes da sua renúncia, a licença terminou com um vácuo que ninguém preencheu -- ou sentiu a necessidade de preencher. O momento da renúncia era o momento para criar vários pequenos projetos, colocar vários nomes (talvez um punhado de novos nomes) neste projetos e mostrar que a FSF encontrou uma forma melhor de continuar. Mas porque eles nunca tentaram inovar, parece que ficaram esperando um novo herói surgir e decidiram chamar o anterior de volta.

Software livre não deveria ser sinônimo de rms.


1

Por favor pessoas, isso não é difícil! Já me xingaram por usar "caras", e eu respondi que entendi o que eles queriam dizer, tomaria mais cuidado no futuro e agradeci pelo aviso. Desde então, eu procuro usar "pessoas" ao invés de "caras" (quem me conhece pessoalmente sabe que eu tenho um vício de linguagem forte em usar "cara") e tento, sempre que possível, usar pronomes neutros. E isso não dói absolutamente nada. E sim, em alguns casos é bem difícil de achar um pronome neutro numa língua como português.